Para quem se esquece do Esquecimento

 Para quem se esquece do Esquecimento

José Eduardo Agualusa traz a magia narrativa no livro Teoria Geral do Esquecimento


Por Pedro Emanuel Bernardino


Em 1960, na província de Huambo, situada no planalto central de uma Angola colonial, nasce José Eduardo Agualusa. Nota-se que, apenas em 1975 é que Angola torna-se independente de Portugal e, conforme se demarcam a temática que envolve outros títulos do autor, como O Vendedor de Passados, o processo da Independência angolana se faz, igualmente, presente em Teoria Geral do Esquecimento.


Talvez não de uma maneira explícita, tal qual própria de historiadores acerca de um fato histórico. Mas as amarguras de um povo colonial, como figura Agualusa, mantém-se em pé, de outra forma, pode se dizer. Como a de antes, subvertido, o povo, aos valores e crenças portuguesas, novamente se submete às mazelas de um Imperialismo, ora mantido às americanas, ora às soviéticas, enquanto em Teoria Geral do Esquecimento se reflete o que é comum a todas as nacionalidades, igualmente mantidas sob o véu humano.


O que antes, em O Vendedor de Passados, o autor assume como “coincidência”, ao tratar dos desdobramentos narrativos presenciados pela osga narrador-personagem, aqui, faz-se o puro realismo mágico. Isto é, não se faz a alusão concreta à “causalidade” enquanto um termo em oração. Pelo contrário, a “magia” que Jorge Luis Borges descreve (“El arte narrativo y la magia”, 1932) se reflete, à luz da causalidade narrativa, na ficção.


No referido Ensaio, Borges reflete como, e de que maneira, essa Ordenança, que governa tudo, e todos, em um Romance, como se refere à magia, poderia não contradizer a narrativa, mas sim a ondulando, moldando o que se sucederá. Talvez, em Teoria Geral do Esquecimento, Agualusa traça a trama romanceada de forma que o leitor não suspeite da intenção do narrador. 


Talvez pela distinção narrativa, o narrador deste, enquanto heterodiegético, consiga usar de sua respectiva focalização, determinando e aliando, conforme Vitor Manuel de Aguiar e Silva pondera a respeito das interações entre as focalizações narrativas (“Teoria da Literatura”, 1979), à trama uma circunscrição alheia aos personagens. Assim, demarcando que a multiplicidade perspectiva, em Teoria Geral do Esquecimento, se faz presente, podendo coincidir, semanticamente, com o recurso que Borges atribui à aparência de veracidade, devido ao detalhamento narrativo. 


A maneira como isso ocorre é sutil. Ou seja, menos abrupta que em O Vendedor de Passados. Em Teoria Geral do Esquecimento, traça-se a partir da trama de Ludovica, ou melhor, paralela a ela. De uma mulher portuguesa, trazida para a Angola, é possível acompanhar a fisiologia, quase que totalizante, de um todo. As classes sociais convivem como os porcos-espinhos, dado ao respectivo espaço-tempo das desenvolturas da trama. Poder-se-ia dizer que Ludo, apelido de Ludovica, é a protagonista. Mas a presente resenha tentará demonstrar que a personagem principal toma-se por outra natureza.


Algo se assume aqui como o flâneur, de Baudelaire e Walter Benjamin, ou de forma similar. O narrador traça um todo, a partir da própria subjetividade servida de seus personagens, como mencionado. Walter Benjamin (“Chales Baudelaire: Um Lírico no Auge do Capitalismo”, 1989) data, na poesia de Baudelaire, o botânico do asfalto, que descrever o mesmo enquanto um observador minucioso de Paris, classificando tipos sociais e decifrando os "sinais" das ruas, em sua própria leitura social.


De acordo com Marco Toledo de Assis Bastos, o flâneur reinventa a cidade a cada passeio, interpreta a infraestrutura amealhada de qualquer significação para aqueles que não compreendem suas peculiaridades, sua modernidade”. Em Marx, a Infraestrutura é o alicerce econômico de uma sociedade, composto pelas Forças Produtivas (como a tecnologia, as ferramentas, e os trabalhadores) e pelas Relações de Produção (propriedade, classes sociais, exploração).


Ao tomar-se Ludo como protagonista de Teoria Geral do Esquecimento, perde-se a capacidade de assimilar a flânerie ao romance. A personagem, diferente do que ocorre no Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, não participa o suficiente da Infraestrutura de Luanda. Entretanto, é possível distinguir o flâneur tal qual o narrador heterodiegético, e sua respectiva focalização narrativa. Este ultimo, com sua leitura a cerca de Luanda, a torna viva.


É Luanda que sofre o esquecimento, talvez. Ela que, submetida sempre ao seu externo, em meio as revoluções mútuas, deixa-se esquecer, talvez. Ludo apenas pode dar a sensação de proximidade, mas é Luanda que é humana, e o narrador sabe disso. Traça, para conceituar a magia que o cerca, histórias acerca dela. E o que se diz da causalidade como seus respiros, que imploram pelo todo, no meio das importações não menos coloniais, que apagam de quem são, fazendo-se necessária tua magia luandense para os lembrar quem são. 


Este livro pode interessar os leitores que apreciam, ou se interessam, pelo realismo mágico. Ou ainda os que gostam de Cinema, talvez achem paralelos com “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, 2001”, mas ao invés da França, aqui, predominam-se as mazelas das colônias.


Título: Teoria Geral do Esquecimento

Autor(es): José Eduardo Agualusa

Publicação: 1 novembro 2012

ISBN-10: ‎ 8566023021

Obtenção: Amazon



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