Do roxo etéreo ao sério álcool

 

Do roxo etéreo ao sério álcool


Fátima Gilioli resgata à atualidade as causas e os problemas consequentes do alcoolismo em “Código 303”

Por Pedro Emanuel Bernardino

Fátima Regina Gilioli, nascida em Campinas, ocupa atualmente a cadeira nr. 18 da Academia Guarulhense de Letras. Formou-se em Jornalismo na PUC de Campinas, em 1997, a partir da apresentação do “Código 303” como Trabalho de Conclusão de Curso. Apesar do livro-reportagem ter sido escrito no final da década de 1990, seu teor continua atual, contemporâneo e urgente. Fátima é autora de outras obras, como a obra de ficção distópica, “#EsseFuturoNão!”, “A vida em Contos” e integra a coletânea de contos, e crônicas, “Cadeira de Mulher”.


Do título, “303” refere-se à classificação antiga (CID-9) para a síndrome de dependência do álcool, tema central deste livro. Atualmente, o código utilizado no Brasil é o CID-10 F10 (Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool). Contudo, o livro não é desatualizado em sua abordagem. 


Dá-se na intercalação de depoimentos reais de pessoas alcoolistas frequentadoras do Alcoólicos Anônimos (A. A.) e Al-Anon, associação de parentes e amigos de alcoólicos, embora seus nomes descritos sejam alusivos à proteção de sua privacidade.  Junto dos dados estatísticos, seguidos dos pareceres de especialistas das respectivas áreas, Saúde, Recursos Humanos e demais, este livro flexiona-se em menções que, entre a abordagem proposta por Fátima Gilioli, concentra-se nas histórias descritas, dando-se no amparo técnico-científico dos dados, atualizados em 2018, que são apresentados ao longo da reportagem.


O Data Storytelling, que progressa-se do jornalismo de dados, ou jornalismo de precisão, busca usar dados empíricos, aliado aos métodos científico-sociais, para produzir-se em reportagens objetivas, buscando a profundidade necessária para o tema abordado. Sua prática ocasionalmente envolve a coleta, análise e visualização de dados e, quando flexionada neste livro, evidencia-se a partir das perspectivas dos personagens envolvidos na trama.


O Jornalismo Literário, apoiado na humanização dos relatos, se faz presente no “Código 303”, oferecendo uma contribuição potencial ao Data Storytelling acolhido na narrativa. Ao focar-se nos depoimentos, a jornalista resgata as descrições cena-a-cena, como propõe Edvaldo Pereira Lima, no Páginas ampliadas, e sucede-se, por fim, em um texto mais subjetivo, flexionado à objetividade, prolongando-se em uma possível identificação do contexto ideológico de quem se depõe de seu depoimento, levando o leitor à sensação de compreensão do contexto, social e cultural, de quem se fala. 


O álcool descrito aqui subverte-se aos retratos literários de Manuel Bandeira que, em “Poética”, fartava-se do lirismo bem-comportado, acometendo-se do lirismo dos bêbados. Da capa roxa que envolve o livro, pode-se arremeter à ideia onírica em que o matiz violeta representa, subjetivamente, à psique humana. Entretanto, "Código 303" contrasta-se rompendo os paradigmas desse imagético onírico que envolve o álcool à séculos, ainda mais se levado em conta os efeitos, as causas, e as consequências reais desse hábito, palpáveis outrora pelos dados, depoimentos e pareceres, apresentados pela autora. Para além disso, para referir-se a essas pessoas, a autora nos ressalta a distinção entre “alcoolista” e “alcoólatra”. De acordo com Fátima, o sufixo “-latra” indica o ato de “adorar” e, no presente caso, não se engloba à semântica da “doença da negação”. Para isso, comumente adota-se o sufixo "-ista" relacionado, ocasionalmente, aos prognósticos da saúde.


Para além da contextualização do problema, o livro “Código 303: Uma reportagem sobre o alcoolismo, a doença da negação” ressalta as problemáticas envolvidas no debate, como, por exemplo, o custeio desta indústria e a movimentação monetária envolvida no comércio de bebidas alcoólicas. Outra ressalva é a de que o livro pode interessar desde quem se é acometido pelo alcoolismo, seus familiares ou entes queridos, até quem se propõe do interesse pelo tema. 


Por fim, torna-se do bom-tom à finalização desta resenha o uso da pessoalidade do presente resenhista: 


Se você, ou alguém que você conhece, sofre com o uso prejudicial de álcool, é importante buscar apoio adequado. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito e especializado através dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD). Além dos serviços públicos de saúde, organizações como o Alcoólicos Anônimos (A.A.), e Al-Anon, oferecem grupos de apoio mútuo e confidencial. Lembre-se que a busca por ajuda profissional é fundamental para um tratamento eficaz.



 


Título: Código 303: Uma reportagem sobre o alcoolismo, a doença da negação

Autor: Fátima Gilioli

Publicação: PerSe, 2018

ISBN-10: ‎ 8545501706

Obtenção: Amazon


Comentários

  1. Excelente texto, Pedro! Muito obrigada por destacar o Código 303, obra da qual sempre gosto de falar e de ver comentada, pois é assim que acaba chegando a quem precisa de informação.

    ResponderExcluir

Postar um comentário