Um cafezinho após o relato de abdução

Um cafezinho após o relato de abdução


Margarida Hallacoc revisita o caso do ET de Varginha e os bastidores na imprensa de 1996 em “Os ETs de Varginha”


Por Pedro Emanuel Bernardino


A autora do livro, Margarida Hallacoc, nasceu em Poço Fundo e descobriu, ainda na infância, o prazer da leitura, e em relação à escrita, a autora aborda um sonho remoto de que, aos 13 anos, desejava uma máquina de escrever Olivetti. Seu avô materno, sabendo uma vez do desejo da neta de ter uma máquina, presenteou-lhe com uma máquina de costura Vigorelli. A confusão não impediu Margarida Hallacoc de comprar, posteriormente, a tão sonhada Olivetti, obtendo-a com seu salário das aulas lecionadas na escolinha do bairro. Seguida da crença de que a informação é um direito sagrado, Margarida Hallacoc formou-se em jornalismo e, nos anos 1990, participou da cobertura jornalística sobre os casos de avistamento, aparições e, em um termo apropriado para esta resenha, contatos imediatos que rondavam Varginha, no Sul de Minas Gerais. 


O livro, por mais que pareça, devido à natureza dos depoimentos ou até à temática que o envolve, é definido enquanto “não-ficção”. A trama central acompanha os desdobramentos posteriores ao dia 20 de janeiro de 1996, data na qual avistaram-se seres extraterrestres vagando por Varginha. “Seres”, no plural, pois o contato imediato de terceiro grau, classificação ufológica para a observação de um ser extraterrestre, mais famoso do Brasil, descrito às perspectivas de três meninas, foi o segundo naquele dia. O primeiro Contato deu-se a tiros, o socorro da criatura no Hospital Humanitas e o resgate feito pelo Exército Brasileiro.


Para além dos recursos literários que circundam as páginas, dota-se das mais aparentes abordagens jornalísticas. O jornalismo que faz a autora, contrário ao periodismo praticado nas redações, é tomado de recursos literários. Como abordam Tom Wolfe e Edvaldo Pereira Lima, entre outros teóricos, estas características dão-se a diversos fatores, dentre eles destaca-se o domínio da linguagem flexionada à urgência jornalística, pouco existente no aspecto editorial. Dito isso, toma-se aqui a ressalva de que: em 1996, talvez não existisse o fôlego necessário para as apurações dos fatos que descrevem-se na temática.


O intento do livro, ao que parece, não é demonstrar a existência, ou não, de seres extraterrestres. Embora em muitas passagens possa-se duvidar de tal premissa. Muitos dos relatos são feitos através das entrevistas ou, como deveriam sê-las no jornalismo, conversas da repórter que dispõe-se a ouvir, de fato, seus interlocutores. Margarida Hallacoc acomoda às páginas as ocorrências dos moradores da região sobre esses contatos imediatos. Muitos deles, dotam-se de um determinado padrão que, ao leitor distraído, assim como este resenhista, podem induzir a uma bifurcação, talvez, moral: Há veracidade aqui, ou um o jornalista falta com a verdade? De certa forma, o leitor distraído menos cético não irá decepcionar-se.


Há, ao redor do mundo, inúmeros casos de avistamento de objetos voadores, dos quais se dotam de formatos semelhantes a um charuto, ou a um ônibus. Qualificando-se neste ponto, a habilidade humana para reconhecer padrões que, desenvolvidas cognitivamente, traduzem-se em padrões de reconhecimento, muitas vezes “padrões falsos”.


Em avistamentos de OVNIs, o que parece ser algo misterioso ou extraordinário, muitas vezes tem explicações terrestres e plausíveis. Esses "padrões falsos" podem ser atribuídos a fenômenos naturais, tecnologia humana e até mesmo fatores psicológicos. Neste quesito, o que diferencia Margarida Hallacoc, neste livro, e Erich von Däniken, é que a autora não induz o leitor a aceitar estes padrões. O uso recorrente da dúvida ante ao que é dito, e o que não é, permeia toda a extensão de “Os ETs de Varginha”.


Por fim, na presente resenha, não se toma como objetivo questionar a veracidade dos depoimentos. De certo modo, todos se dispõe de sua honestidade a sua maneira. Mas nota-se, e este é o objetivo central deste texto, o quão o jornalismo toma-se como orgânico, nos anos 1990. A dificuldade de mobilidade, da apuração, a duração das entrevistas, as conversas dispostas entre goles de café, e a precariedade tecnológica da época, dentre outros exemplos, evidenciam, talvez, a organicidade que se formulava na imprensa brasileira. Diante às adversidades que prestavam-se ao longo do dia-a-dia do jornalista, este via-se obrigado a contorná-las e seguir em frente. Evidencia, ainda, ao presente resenhista, que hoje, apesar das dificuldades existentes, fazer jornalismo é um pouco mais fácil e, ao mesmo tempo, mais difícil. 


Em certa passagem, a autora reflete que “um cafezinho muda rumos da prosa, muda o andar dos fatos, muda humores. Ganha-se tempo para a próxima frase, quem sabe acertada”. No decorrer de uma linha editorial, seguida dos deadlines estritos, o tempo curto, a pressão e etc., o jornalista deixa-se levar no ritmo ensurdecedor da produção, demanda e tempo, comumente alienando-se à humanidade necessária para conduzir-se em uma entrevista.


A disposição que Adriana Carranca contrapõe, em uma entrevista de 2015 ao Aventura de Ler, de participar da vida do entrevistado, pelo menos por um tempo, com o intuito humano de perceber-se no lugar desta, de entender como ela vive, o que come, como se relaciona e etc., muitas vezes é inadequado ao curto fôlego do periodismo jornalístico, disposto pelo critério de “urgência”, conforme Manuel Ángel Vázquez Medel flexiona.


Entretanto, nota-se a contrapartida dessa função social do jornalismo quando disposto nas páginas de um livro. O livro “Os ETs de Varginha: Os bastidores da cobertura jornalística que chocou o Brasil” pode interessar a quem gosta, ou considera-se aficcionado sobre o assunto “ufologia”, contudo, também interessa aos que se propõe a refletir e estudar o jornalismo quando  estendido ao universo literário, assim como este resenhista. 


Título: Os ETs de Varginha: Os bastidores da cobertura jornalística que chocou o Brasil

Autor(es): Margarida Hallacoc

Publicação: 4 maio 2023

Notas: Obra baseada em entrevistas, reportagens e documentos sobre o caso ocorrido em Varginha (MG), em 1996

ASIN: ‎ B0C4FZ1FNC

Obtenção: Amazon


Comentários